Curandeira Curada

Estamos em um momento de “boom” do movimento feminino, é mulher pra cá, sagrado feminino pra lá, empoderamento acolá. Maravilhoso! Muitas mulheres sentindo o chamado de curar e ser curada, de trabalhar o poder feminino sagrado tão reprimido e esquecido nos últimos tempos.

Para que todo este movimento se desenvolva de forma verdadeira e efetiva e não fique só na superficialidade e no “modismo”, sinto que, primeiramente, nós mulheres que sentimos o chamado para este precioso trabalho, precisamos fazer algumas perguntas ao nosso coração. Estamos preparadas para encontrar o feminino profundamente machucado? Conscientes que quando nos dispomos a fazer um trabalho desta magnitude não vamos apenas encontrar mulheres amáveis, fofinhas e leais?

Se não estamos preparadas, afinal a gente nunca acha que está, mas estamos ao menos dispostas a este encontro? Dispostas a se deparar com mulheres profundamente amarguradas, dilaceradas por infinitas ditaduras e conceitos, privadas de toda a sua expressão e poder? Dispostas a conhecer mulheres que nem sempre nos apoiarão ou ficarão do nosso lado, mulheres que ainda vibram na competição e na inveja e que muitas vezes irão desejar a nossa vida?

Abertas para entender profundamente o quanto há mulheres carentes de si mesmas, marcadas pelas profundas cicatrizes deixadas por séculos de opressão? Preparadas ou dispostas para amarmos e perdoarmos todo o feminino que passar por nossas vidas, seja ele qual for e seja qual for a lição que ele tem a nos ofertar? Cientes de que a outra também faz parte de nós e que não importa o quanto o nosso coração se despedace, absolutamente não existe ninguém melhor ou pior?

Dispostas a compreender a profunda razão e os motivos de qualquer atitude, pois no Universo existem diversas verdades? Preparadas ou dispostas para nos despir da ingenuidade de que falar de Sagrado Feminino se resume a reuniões regadas a palavras bonitas sobre amor, sororidade, menstruação, artes e lindas fotos?

Temos ideia de que para falar de feminino precisamos primeiramente curar os nossos relacionamentos com os úteros mais próximos da nossa linhagem? Como encaramos a nossa relação com a nossa mãe? Com as nossas irmãs? Com nossas filhas? Nossas avós? Compreendemos que a nossa família material são as primeiras que necessitam de cura, amor e acolhimento? Aceitamos todas elas como elas simplesmente são?

Eu, honestamente, não fazia ideia de que as feridas da alma feminina eram tão profundas. E não teço essas palavras para nos desencorajarmos, jamais, pelo contrário, apenas sinto em compartilhar parte da minha história como mulher que escolheu este trilhar.

Hoje o ensinamento que me chega e eu compartilho é do quão profundo e delicado é este caminhar e que para trabalhar com o feminino, precisamos ao menos estar conscientes e dispostas a olhar com outros olhos toda e qualquer mulher que passar por nossas vidas.

E se um dia o feminino nos magoar profundamente, precisamos olhar através da cicatriz e compreender que, naquele momento, era a única coisa que ele tinha a nos oferecer e que não há mulheres certas ou erradas, há mulheres machucadas tentando se encontrar. E que se nós não fizermos as “pazes” com cada feminino deste que cruzar o nosso caminho de nada valeu nosso belo discurso sobre Sagrado Feminino.

Se um dia a nossa miséria humana falar mais alto e não soubermos perdoar e acolher toda a dor e decepção que nos foi ofertada que possamos através da força do nosso ventre transmutar tudo em gratidão. No meu entendimento, estas compreensões e aceitações se fazem absolutamente necessárias se quisermos ser um canal verdadeiro da Grande Mãe.

Se desejarmos nos libertar de todas as amarras que nos impedem de ser livres e plenas, senhora das nossas escolhas, aquela que sabe dar e receber, mas que também sabe escolher e não ser sempre escolhida. Se almejarmos ser aquela que sabe o que quer, ou pelo menos o que não quer para si, aquela que enxerga com sabedoria todas as situações e com gratidão no coração tira o melhor proveito e aprendizado de cada uma dela.

Aquela que enxerga a fraqueza alheia, mas finge não enxergar nada e trata toda a imperfeição humana, inclusive a sua, com naturalidade. Aquela que verdadeiramente não se importa com o que os outros vão pensar dela, porque isto realmente não lhe diz o menor respeito. Aquela que se aceita, se ama e se respeita brutalmente a ponto de não permitir mais qualquer coisa que não a deixe menos do que completamente feliz. Aquela que descobriu que é na absoluta reverência ao Sagrado Masculino que está a perfeita cura do Sagrado Feminino.

Aquela que não foge mais nem do feminino, nem do masculino que lhe desagrada. Aquela que fez as pazes com todos os arquétipos da mulher, sendo ele o selvagem, o amoroso, rancoroso ou o materno, mas que aprendeu a dissolver as divisas e os conceitos entre o bem e o mal, o certo e o errado. Aquela que sabe que no coração de uma Curandeira Curada só tem espaço para o amor sem condições e que não há mais tempo para rivalidades, sentimentos de posse ou vaidades. Aquela que cumpre a sua parte na grande teia, que somos todos nós e que ao escolher trilhar por esta senda segue adiante com a certeza que não há força mais poderosa no Universo que o amor.

Se temos estes desejos e estamos dispostas a CRESCER, vamos embora, estamos juntas, manas!

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