Pagão, gentio ou bruxo?

*texto originalmente publicado no blog Elemento Chaõ

 

Pagão vem do latim paganus,termo que se referia ao morador do campo, cuja expressão e vivência espiritual eram voltadas para a natureza e seus ciclos de plantação, colheita e estio. Para o pagão ou gentio, a divindade tinha muitas faces, sendo assim, em geral era politeísta.

Eis a definição do dicionário Houaiss:

:: pagão          Datação: sXIII   adjetivo e substantivo masculino

1 que ou aquele que não foi batizado  2 adepto de qualquer religião que não adota o batismo ou adota o politeísmo

 ::gentio           Datação: sXIII adjetivo e substantivo masculino

1 que ou aquele que professa o paganismo; idólatra  2 que ou aquele que não é civilizado; selvagem   3 entre os hebreus, que ou aquele que é estrangeiro ou não professa a religião judaica.

Grosso modo, todas as religiões anteriores ao cristianismo, judaísmo e islamismo são consideradas pagãs — até mesmo algumas bem expressivas nos dias de hoje como o budismo, o hinduísmo e o candomblé. A cultura de grandes civilizações como a grega, a romana e a egípcia também era pagã ou gentílica.

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Porém esses termos e sua má reputação só surgiram com a igreja cristã, cujos padres estavam determinados a catequizar e converter toda uma população que eles consideravam ignorante.

Hoje o termo paganismo ou neopaganismo abarca várias práticas contemporâneas de uma espiritualidade baseada e focada na natureza, honrando a divindade como imanente, inseparável e contida na natureza de um ser. Ou seja, deus, deusa e deuses estão contidos, moram e são expressos através de cada pedacinho da criação, inclusive cada um de nós.

A partir dessa visão – muito mais clara e palpável do que o conceito de “onipresença” – fica impossível para qualquer um que professe uma fé pagã dissociar sua religião de uma preocupação ecológica e de máximo respeito e reverência à natureza; pois a natureza Deusa é.

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A hipótese Gaia, proposta pelo químico James Lovelock nos anos 70, sugere que os gregos não estavam criando nenhuma alegoria quando personificaram nosso planeta como uma Deusa. Lovelock propõe que a Terra é um organismo vivo, um ser mais antigo e muito mais complexo do que podemos imaginar.

Para os pagãos, isso é muito claro: os panteões antigos de deuses não são alegóricos nem mitológicos, eles são respeitados como verdade e cultuados com devoção. Embora a maioria seja politeísta, alguns acreditam que os inúmeros deuses e deusas representam apenas aspectos de uma energia maior que seria a fonte de tudo.

Como as tradições neopagãs não têm dogmas, a interpretação e a prática acabam sendo tão individuais quanto o DNA de cada praticante. Porém há algumas, digamos, linhas gerais que são compartilhadas pela maioria. Além da imanência divina e do politeísmo, é comum a percepção da divindade como Deus e Deusa, que se manifestam no ciclo das estações, da morte e do renascimento, e várias tradições têm na divindade feminina seu foco predominante. Também é comum uma ênfase severa na responsabilidade pessoal sobre nossas ações e nossas experiências de vida, com uma ética baseada na inexorável lei do retorno.

Paganismo como religião nativa

Boa parte do paganismo hoje no ocidente é amplamente baseado nas práticas europeias das tribos célticas e nórdicas. O próprio uso da palavra “tribo” já deveria dar a pista do que muitos não percebem: que o neopaganismo é sim um conjunto de práticas espirituais baseado em tradições das populações nativas ou gentílicas da Europa.

Esta retomada das crenças mais antigas da humanidade aparece de muitas formas. Há os que buscam reconstruir as antigas religiões pré-cristãs, como o reconstrucionismo helênico e o celta, enquanto outros reinterpretam e recombinam panteões de deidades, afinal como já vivemos uma mistura de genes, etnias e culturas, nada mais natural do que a globalização se manifestar também no nosso altar.

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Dentre as tradições pagãs contemporâneas a Wicca é talvez a denominação mais conhecida, mas é importante frisar que há muitas outras. Alguns grupos pagãos são mais adeptos de rituais formais, ligados à magia cerimonial das sociedades secretas, outros preferem vivências mais xamânicas ou têm seu foco nas questões do feminino, muitos se dedicam à celebração das fases da lua e dos ciclos do ano, ao conhecimento psicológico, a trabalhos de cura com ervas e cristais, ao desenvolvimento de seus poderes psíquicos, formulação de feitiços, poções e até artes culinárias ou manuais. Aqueles que combinam várias práticas sem seguir uma linha específica se autodenominam de “ecléticos”.

E o bruxo, onde se encaixa?

Essa é uma palavra complicada e com muitos sentidos. Na versão bonitinha e inofensiva, é quando alguém diz: “Minha amiga é bruxinha, ela joga tarot.” Na versão medieval, quando a palavra foi deturpada, ligada à malignidade e privada de seu significado, tomou a conotação do dicionário que diz ser “quem se utiliza de supostas forças sobrenaturais para causar malefícios, prever o futuro e fazer sortilégio”.

Muitos praticantes de paganismo utilizam o termo bruxo ou bruxa com orgulho, remetendo a um tempo bem anterior à inquisição, quando em diferentes idiomas esse era o título que indicava o pajé, xamã, sábio, sacerdotisa ou sacerdote da Antiga Religião, alguém que sabia curar, aconselhar e interceder junto aos deuses em nome da tribo ou aldeia.

Escolher usar a expressão bruxaria para denominar nossa espiritualidade é um ato de bravura, de romper com estereótipos nocivos gerados e mantidos por uma instituição religiosa que tratou de exterminar com qualquer manifestação de fé contrária ou diferente. Declarar-se bruxo é ter a coragem de reivindicar o direito de vivermos uma liberdade verdadeira de crença, livre de rótulos ultrapassados, de incompreensão e repressão.

Na minha ousadia, gosto muito dos termos bruxo e gentio. E você?

 

*nos Estados Unidos é crescente o número de pagãos que se identifica com o termo “heathen” em vez de “pagan”. A tradução mais próxima que encontrei no português para heathen é a palavra “gentio”.

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